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sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Solidão

                                 A Solidão


  Desde muito cedo amei a solidão. Isso não quer dizer que eu fosse um solitário. Ao contrário. Sempre tive amigos. A amizade é coisa que só cresce  da solidão: ela é o encontro de duas solidões.
  As fontes de águas limpas são sempre solitárias. São encontradas nas florestas, longe dos caminhos das feiras e das romarias. As florestas são lugares solitários. As multidões fogem delas. Preferem as praias e os playcenters. São poucos os que amam a solidão das florestas. Por isso, os amigos são poucos. Quem. como Roberto Carlos, canta que quer ter um milhão de amigos, não sabe o que é a amizade. Confunde amizade com festa.
  Solidão é o ar que se respira quando se entra nas paisagens da alma. A alma é uma paisagem. D. Migul de Unamuno a sentia assim, tanto que deu o título de Paisagens da alma a um dos seus livros mais belos. 

  A neve havia coberto todos os picos rochosos da alma, aqueles que, mergulhados no céu, se contemplam nele como um espelho que vêem, por vezes, refletidos sob a forma de nuvens passageiras.  A neve, que havia caído em tempestade de flocos, cobria os picos, todos rochosos, da alma. Estava ela, a alma envolta num manto e imaculada brancura, de acabada pureza, mas por debaixo ela tiritava, endurecida de frio. Porque é fria, muito fria a pureza! A solidão era absoluta naqueles picos rochosos da alma, semicobertos, como por um sudário, pelo imaculado manto de neve. Somente de tempos em tempos alguma águias faminta  examinava a brancura desde os céus, buscando descobrir nela o rastro de alguma presa. Aqueles que, do vale, olhavam para os picos brancos, eram os espíritos, as almas das árvores, dos regatos, das colinas; algumas, almas fluidas e rumorosas que discorriam entre margens de verdura, e outras cobertas de verdura. Lá no alto tudo era silêncio.

  Um outro poeta-profeta, Nietzsche, também sentia alma como uma paisagem.

 A noite chegou; agora todas as fontes falam mais alto. E a minha alma também é uma fonte. A noite chegou ; somente agora todas as canções dos amantes acordam. E a minha alma. também, é canção de apaixonado. Eu sou a luz, ah, que noite fosse! Mas esta é a minha solidão, que estou cingido de luz. Ah! Que eu fosse sombrio e noturno! Como eu haveria de sugar os seios da noite! Os sóis voam como uma tempestade nas suas órbitas: assim é o seu movimento. Eles seguem a sua vontade inexorável: isto é a sua frieza. Estou cercado de gelo, minha mão foi queimada pelo gelo. A noite chegou e, com ela, a sede pelo noturno! E pela solidão!

   Assim era a alma de Unamuno. Assim era a alma de Nietzsche. As paisagens que vemos, assim é a nossa alma. Porque nós vemos aquilo que somos.
    Abrimos um álbum e mostramos aos amigos as fotos da viagem. Paisagens.  Aqui um lago. Ali um pôr-do-sol. A foto é a mesma. Mas quem garante que as paisagens das almas sejam as mesmas? Aquilo que sinto, vendo o lago e o pôr-do-sol, não é a mesma coisa que você sente, vendo o mesmo lago e o mesmo pôr-do-sol. "O que sinto, a verdadeira substância com o que sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais  profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é", diz Bernardo Soares. As passagens da alma não podem ser comunicadas. A alma é um segredo que não pode ser dito. Por isso, quanto mais fundo entramos nas paisagens da alma, mais silenciosos ficamos. A alma é um lugar onde os sentimentos são profundos demais para palavras. "Calamos", diz Sor Juana, "não porque tenhamos o que dizer, mas porque não sabemos como dizer tudo aquilo que gostaríamos de dizer".
    A solidão é para poucos. Não é democracia. Não é um direito universal. Para ser um direito de todos teria que ser desejada por todos. Mas são poucos os que a deseja. A maioria preferem a agitação das procissões, dos comícios, das praias, da torcida: lugares  onde todos falam e ninguém ouve. A democracia é um jogo que se faz com coisas que podem ser ditas. Na democracia os segredos são proibidos. É um jogo do qual todos devem participar. É coisa boa, ideal político que deve ser buscado para o bem-estar de todos. Mas nela não há,  nem poderia haver, lugar para a solidão e o segredo. A democracia é ave que nada na superfície  do mar. Não é peixe das funduras. Ela vive do jornal, da informação, do que é público...
    A plebe sempre odeia os solitários. Ela despreza os que andam na direção contrária. Paulo Coelho e Lair Ribeiro  são best sellers. Mas os poetas não conseguem nem mesmo publicar os seus poemas. E, no entanto, segundo Goethe, justamente com as crianças e os artistas, são eles, os poetas, aqueles que se encontram em harmonia com o indizível mistério da vida. A plebe sempre condena a alma solitária ao exílio, por não suportar a diferença. Quão dolorido é o lamento de Zaratustra:
Onde subirei, com meu desejo? De todas as montanhas eu busco terras paternas e maternas. Mas não encontrei um lar em lugar algum. Sou um fugitivo em todas as cidades, e uma partida em todas as portas. Os homens de hoje, para quem meu coração recentemente me levou, são-me estranhos e grotescos. Sou expulso de todas as terras paternas e maternas. Assim, eu agora amo apenas a terra dos meus filhos, ainda não descoberta, no mar mais distante: e nesta direção enfuno minhas velas...
Na segregariedade os mundos velhos são preservados.
Na solidão os mundos novos são gerados. 
As montanhas, as florestas, os mares: cenários da alma. Há neles uma grande solidão. E a solidão é dolorida. Mas há também uma beleza, pois é só na solidão que existe a possibilidades de comunhão. Assim, não tenha medo:
"Foge para dentro da tua solidão. Sê como a árvore que ama com seus longos galhos: silenciosamente, escutando, ela se dependura sobre o mar..."


A Festa de Maria (Rubem Alves) P.47-50

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