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domingo, 31 de maio de 2015

"Rubem, eu tenho um sonho. Sonho que um dia qualquer eu vou acordar e vou ter esquecido o meu nome. Quem sou eu? - eu vou me perguntar. E eu não saberei o que responder. Não terei memória do meu nome. O ruim é quando a gente esquece o nome mas os outros continuam a saber quem somos. Aí os psiquiatras dizem que tivemos um ataque de amnésia. E tratam de nos curar, de fazer-nos lembrar o nome para que saibamos quem somos. O nome é uma gaiola onde o que somos mora. Declaram-nos curados quando o nosso ser aparece de novo dentro da gaiola. Bom seria se os outros também se esquecessem do nome da gente. Aí eles teriam perdido a memória da gaiola que prendia o nosso ser. E o nosso ser se transformaria em pássaro, e voaria livre por espaços por onde nunca havia voado. O nome é uma prisão."  


A Festa de Maria- Rubem Alves






sexta-feira, 29 de maio de 2015

                                                        Desde Que Eu Amo Você

Trabalhando das sete às onze todas as noites
Isso realmente faz da vida um saco, não acho que está certo
Eu realmente tenho sido o maior, o maior dos idiotas
Eu fiz o que pude, yeah

Pois eu te amo, baby
Como eu te amo, querida,
Como eu te amo, baby
Como eu te amo, garotinha

Baby, desde que estou amando você, yeah
Estou prestes a perder minha cabeça preocupada

Todos tentaram me dizer
Que você não me fazia bem
Eu tentei, Senhor, deixe-me dizer
Deixe-me dizer que realmente fiz o melhor que pude

Eu tenho trabalhado das sete às onze todas as noites
Eu disse que isto meio que faz da minha vida um saco , um saco, um saco, um saco, Senhor, isso não está certo

Desde que estou amando você
Estou prestes a perder minha cabeça preocupada
Disse que tenho chorado, minhas lágrimas caem como chuva
Você não ouve, você não as ouve cair?

Você se lembra quando eu bati na sua porta?
Eu disse que você se atreveu a me falar que não me queria mais, yeah
Eu abro minha porta da frente, e escuto minha porta dos fundos bater
Você deve ter um desses amantes mais jovens

Eu tenho trabalhado das sete, sete, sete às onze todas as noites
Isto meio que faz da minha vida um saco, um saco, um saco
Baby, desde que estou amando você
Estou prestes a perder, eu estou a ponto de perder minha cabeça preocupada

Eu só quero mais uma chance querida
Desde que estou amando
Eu quero mudar a minha mente preocupada.


(Led Zeppelin)


A Solidão

                                 A Solidão


  Desde muito cedo amei a solidão. Isso não quer dizer que eu fosse um solitário. Ao contrário. Sempre tive amigos. A amizade é coisa que só cresce  da solidão: ela é o encontro de duas solidões.
  As fontes de águas limpas são sempre solitárias. São encontradas nas florestas, longe dos caminhos das feiras e das romarias. As florestas são lugares solitários. As multidões fogem delas. Preferem as praias e os playcenters. São poucos os que amam a solidão das florestas. Por isso, os amigos são poucos. Quem. como Roberto Carlos, canta que quer ter um milhão de amigos, não sabe o que é a amizade. Confunde amizade com festa.
  Solidão é o ar que se respira quando se entra nas paisagens da alma. A alma é uma paisagem. D. Migul de Unamuno a sentia assim, tanto que deu o título de Paisagens da alma a um dos seus livros mais belos. 

  A neve havia coberto todos os picos rochosos da alma, aqueles que, mergulhados no céu, se contemplam nele como um espelho que vêem, por vezes, refletidos sob a forma de nuvens passageiras.  A neve, que havia caído em tempestade de flocos, cobria os picos, todos rochosos, da alma. Estava ela, a alma envolta num manto e imaculada brancura, de acabada pureza, mas por debaixo ela tiritava, endurecida de frio. Porque é fria, muito fria a pureza! A solidão era absoluta naqueles picos rochosos da alma, semicobertos, como por um sudário, pelo imaculado manto de neve. Somente de tempos em tempos alguma águias faminta  examinava a brancura desde os céus, buscando descobrir nela o rastro de alguma presa. Aqueles que, do vale, olhavam para os picos brancos, eram os espíritos, as almas das árvores, dos regatos, das colinas; algumas, almas fluidas e rumorosas que discorriam entre margens de verdura, e outras cobertas de verdura. Lá no alto tudo era silêncio.

  Um outro poeta-profeta, Nietzsche, também sentia alma como uma paisagem.

 A noite chegou; agora todas as fontes falam mais alto. E a minha alma também é uma fonte. A noite chegou ; somente agora todas as canções dos amantes acordam. E a minha alma. também, é canção de apaixonado. Eu sou a luz, ah, que noite fosse! Mas esta é a minha solidão, que estou cingido de luz. Ah! Que eu fosse sombrio e noturno! Como eu haveria de sugar os seios da noite! Os sóis voam como uma tempestade nas suas órbitas: assim é o seu movimento. Eles seguem a sua vontade inexorável: isto é a sua frieza. Estou cercado de gelo, minha mão foi queimada pelo gelo. A noite chegou e, com ela, a sede pelo noturno! E pela solidão!

   Assim era a alma de Unamuno. Assim era a alma de Nietzsche. As paisagens que vemos, assim é a nossa alma. Porque nós vemos aquilo que somos.
    Abrimos um álbum e mostramos aos amigos as fotos da viagem. Paisagens.  Aqui um lago. Ali um pôr-do-sol. A foto é a mesma. Mas quem garante que as paisagens das almas sejam as mesmas? Aquilo que sinto, vendo o lago e o pôr-do-sol, não é a mesma coisa que você sente, vendo o mesmo lago e o mesmo pôr-do-sol. "O que sinto, a verdadeira substância com o que sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais  profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é", diz Bernardo Soares. As passagens da alma não podem ser comunicadas. A alma é um segredo que não pode ser dito. Por isso, quanto mais fundo entramos nas paisagens da alma, mais silenciosos ficamos. A alma é um lugar onde os sentimentos são profundos demais para palavras. "Calamos", diz Sor Juana, "não porque tenhamos o que dizer, mas porque não sabemos como dizer tudo aquilo que gostaríamos de dizer".
    A solidão é para poucos. Não é democracia. Não é um direito universal. Para ser um direito de todos teria que ser desejada por todos. Mas são poucos os que a deseja. A maioria preferem a agitação das procissões, dos comícios, das praias, da torcida: lugares  onde todos falam e ninguém ouve. A democracia é um jogo que se faz com coisas que podem ser ditas. Na democracia os segredos são proibidos. É um jogo do qual todos devem participar. É coisa boa, ideal político que deve ser buscado para o bem-estar de todos. Mas nela não há,  nem poderia haver, lugar para a solidão e o segredo. A democracia é ave que nada na superfície  do mar. Não é peixe das funduras. Ela vive do jornal, da informação, do que é público...
    A plebe sempre odeia os solitários. Ela despreza os que andam na direção contrária. Paulo Coelho e Lair Ribeiro  são best sellers. Mas os poetas não conseguem nem mesmo publicar os seus poemas. E, no entanto, segundo Goethe, justamente com as crianças e os artistas, são eles, os poetas, aqueles que se encontram em harmonia com o indizível mistério da vida. A plebe sempre condena a alma solitária ao exílio, por não suportar a diferença. Quão dolorido é o lamento de Zaratustra:
Onde subirei, com meu desejo? De todas as montanhas eu busco terras paternas e maternas. Mas não encontrei um lar em lugar algum. Sou um fugitivo em todas as cidades, e uma partida em todas as portas. Os homens de hoje, para quem meu coração recentemente me levou, são-me estranhos e grotescos. Sou expulso de todas as terras paternas e maternas. Assim, eu agora amo apenas a terra dos meus filhos, ainda não descoberta, no mar mais distante: e nesta direção enfuno minhas velas...
Na segregariedade os mundos velhos são preservados.
Na solidão os mundos novos são gerados. 
As montanhas, as florestas, os mares: cenários da alma. Há neles uma grande solidão. E a solidão é dolorida. Mas há também uma beleza, pois é só na solidão que existe a possibilidades de comunhão. Assim, não tenha medo:
"Foge para dentro da tua solidão. Sê como a árvore que ama com seus longos galhos: silenciosamente, escutando, ela se dependura sobre o mar..."


A Festa de Maria (Rubem Alves) P.47-50

Rubem Alves

Esse primeiro texto  seria um tanto quanto desnecessário. Não desnecessário pelo contexto que iremos iniciar, e sim por esclarecer. Meu objetivo de antemão é viajar pelas belas crônicas de Rubem Alves. Um escritor brasileiro com um olhar peculiar e bastante iluminado por uma sabedoria extraordinária. 
Rubem Azevedo Alves nasceu em 15 de setembro de 1933. Trabalhou como educador, foi escritor, psicanalista e teólogo.  Não irei me estender sobre suas escolhas em academias, e sim em suas obras que revelam a magnitude desse grande escritor.